Prof. Jean Alves Cabral

Um amigo de muitos anos, em um encontro num café em Aracaju (Sergipe, Brasil), depois de um certo tempo de conversa, colocando as fofocas em dias, me perguntou:

– Jean, se você pudesse se definir de modo profundo; como se apresentaria, por exemplo, num texto curto?

Pensei e repensei muito esta questão por quase dois anos e finalmente creio haver encontrado a resposta objetiva e segura para dar à mim mesmo acerca de tão importante questão!

Eu sou duas concepções fundamentais!

1) Um Pragmático!

Eu sou um pragmático! Tudo em mim é sistema e organização em quadros mentais, o tempo todo, todo o tempo. Talvez porque seja portador da Síndrome de Bordeline e ela seja controlada desde meus 29 anos com o rigor da disciplina mental; mas, enfim, sou decididamente um pragmático!

O pragmatismo constitui uma Escola de Filosofia estabelecida no final do século XIX, com origem no Metaphysical Club, um grupo de especulação filosófica liderado pelo lógico Charles Sanders Peirce, pelo psicólogo William James e pelo jurista Oliver Wendell Holmes Junior, congregando em seguida acadêmicos importantes dos Estados Unidos.

Segundo a Escola Pragmática, enquanto doutrina metafísica, o sentido de uma ideia corresponde ao conjunto dos seus desdobramentos práticos. Não farei uma análise ampla do pragmatismo neste momento, embora dentro de meu Site eu aponte esta abordagem com uma devoção maior, é importante salientar que não sou um pragmático preso em 1898 quando se fez o primeiro registro deste termo por William James.

Um pragmático é alguém que se posiciona com base em evidências empíricas e nas práticas mais vantajosas para o sujeito individual, pode ser considerado uma doutrina filosófica que procura a verdade não como símbolo, mas como fato. Por isto eu procuro sempre entender e sintetizar os fenômenos que estou analisando à uma abordagem especificamente prática, útil, necessária, não gastando meu tempo com a especulação ociosa ou mesmo inútil. Prefiro sempre fazer a pergunta primária que vai nortear toda a investigação: “esta pesquisa tem que utilidade?”

Não me definiria como um utilitarista estrito, embora a doutrina ética defendida principalmente por Jeremy Bentham e John Stuart Mill, contemporâneos do grupo que sistematizou o pragmatismo; entendo que tal proposta teve o mérito de afirmar e propor uma lógica em que as ações são boas quando tendem a promover a felicidade e a qualidade de vida e, obviamente ruins e más, quando tendem a destruir ou promover o oposto da felicidade.

O utilitarismo prático obviamente tem as suas limitações num mundo em que as subjetividades e os relativos querem se impor como se fossem significativos na verdade concreta da vida analisada pelo pragmatismo – mas, a ideia de que eu devo agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar para mim, para minha família, para a comunidade, o país e, quiçá, o mundo – é um ideal pelo qual vale a pena viver!

Foi com base nesta abordagem primária que abri minha mente para um mar de leituras, para um acervo que tem centenas de livros físicos e virtuais e, animosamente eu os desfruto com a claridade e generosidade de uma xícara de café ou de chocolate diariamente, entendendo que estou em um abençoado colóquio com estes centenares de amigos. Expoentes com os quais eu brigo, me divirto e me instruo – para oferecer, oportunamente, às pessoas com quem interajo, uma visão maiêutica e noética da vida!

Do filósofo espanhol e ateu George Santayanna vem a frase que meus alunos me ouvem repetir milhares de vezes:

– Entre o ventre materno e o túmulo, resta-nos viver intensamente o intervalo!

Eu digo sempre altaneiro: Cuidado com a intensidade e tudo que ela representa, para não acelerar a chegada do túmulo!

De Alfred Adler, magnífico psicólogo holístico veio a máxima síntese:

– É o indivíduo que não está interessado no seu semelhante quem tem as maiores dificuldades na vida e causa os maiores males aos outros. É entre tais indivíduos que se verificam todos os fracassos humanos.

Não me perdi da acidez do ceticismo de Santayanna e verifiquei que a sua tristeza se confirma nesta outra pérola:

– Que a vida vale a pena ser vivida, é a mais necessária das admissões, e, não sendo tal admitido, a mais impossível das conclusões!

E, foi com esta firme convicção que entendi que a vida e nada mais do que a vida, com todas as suas complicações e desencontros, é o que me inspira à ir adiante!

Exatamente neste ponto, me confesso um seguidor da Filosofia da Qualidade de Vida que é a doutrina que considera a busca de uma vida plenamente feliz – seja em âmbito individual seja coletivo -; ela se estabelece no princípio e fundamento dos valores morais, julgando eticamente positivas todas as ações que conduzam o homem à felicidade. É toda doutrina moral que, recolocando o bem na felicidade (eudaimonia), persegue-a como um fim natural da vida humana. E que seja bem distinguido este aporte do hedonismo, segundo o qual, o fim da ação humana é a obtenção do prazer imediato, entendido como gozo circunstanciado e transitório, uma posição efêmera diante das grandezas da vida!

2) Um Dogmático!

Trata-se então de uma postura que, ao contrário do egoísmo, insiste no fato de que devemos considerar o bem-estar de todos e não o de uma única pessoa. E esta abordagem, com todas as vênias de quem me lê neste instante, não encontro em ninguém que possa ser melhor que Cristo!

Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele. (Atos 10:38).

Aquele que diz estar nEle deve andar como Ele andou! (1ª João 2:6).

E Jesus andava de aldeia em aldeia, pregando o evangelho do Reino, ensinando nas sinagogas e curando as enfermidades do povo. (mateus 4:23; 9:35).

Decidida e absolutamente é minha diretriz existencial suprema!

É a maior de todas as doutrinas de minha existência. Uma resposta particular à filosofia eudemonista, ao pragmatismo, à maiêutica e à noética existencial! Este sou eu perseguindo um ideal maior que minha vida, pelo qual a própria vida deve ser sacrificada! Creio nisto com todas as minhas forças! É uma definição pessoal, não uma confissão religiosa ou proposta de participação numa seita ou igreja qualquer.

Quando falo sobre o utilitarismo aliado ao pragmatismo e das interessantes abordagens em que estes foram aplicados de modo concreto nas bases do sistema político, na legislação, na justiça, na política econômica,  na emancipação feminina e em outros cenários; penso neles como duas bases de convergência para reafirmar na Era Contemporânea a lógica imperativa das Escrituras Israelenses quando nos dizem que o Cristo viveu para fazer o bem, pregar, ensinar e curar as pessoas, chegando ao máximo de doar toda a Sua vida pelos outros.

Deste tema o apóstolo Pedro tratou com a seriedade que a pauta enseja:

Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos. (1ª Pedro 2:15).

Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. (1ª Pedro 2:20).

Porque é melhor é que padeçais fazendo o bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo mal. (1ª Pedro 3:17).

Portanto também os que padecem segundo a vontade de Deus encomendem-lhes as suas almas, como ao fiel Criador, fazendo o bem. (1ª Pedro 4:19).

E, com todo respeito a todas as demais confissões religiosas, ninguém pode ser comparado ao Cristo nestes termos:

Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. (João 15:13)

Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. (1ª João 3:16)

Meu pragmatismo, meu utilitarismo, meu evangelismo são todos focados nesta diretriz superior. E digo superior, porque em Paulo Apóstolo encontro a afirmativa de que “o mesmo Deus de paz vos santifique – eduque em vosso corpo, alma e espírito” (1ª Tessalonicenses 5:23); então, vejo Deus atuando em minha vida de tal modo que pelo “ministério de fazer o bem” eu posso ver, sem dúvidas, meu espírito edificado pela pregação, minha alma construída pela educação e meu corpo pela cura.

Foi por isto que me formei ‘formalmente” em medicina natural, em teologia e em pedagogia – porque em cada uma delas há o tripé básico do pregar, ensinar e curar de Cristo – com foco centrado no fazer o bem!

Ora, mas é claro que de um modo rigorosamente específico eu me confesso rigidamente um dogmático!

O dogmatismo é uma espécie de fundamentalismo do bom senso ou do senso comum, determinado em certo cenário sociocultural. E há, aqui, um bom pano de fundo para se travar homéricas disputas filosóficas, mas que, por força do dogma que escolhi e apresentei em termos de pragmatismo utilitarista processual, maiêutico e noético, para prestar um serviço existencial em torno da qualidade de vida – enfim, não farei neste texto a abordagem da amplitude com que concebo tal direção.

Immanuel Kant em sua obra “Crítica da Razão Pura” pretendeu que os dogmáticos expressam verdades talvez não certas, indubitáveis e não sujeitas a qualquer tipo de revisão ou crítica e, por esta razão imprimiu um sentido depreciativo à palavra “fundamentalismo” ou “fundamentos”. Ele inaugurou a ‘era do relativismo moderno”, criticando a tendência de que o dogmático é alguém que possui a tendência para acreditar que o mundo é da maneira que lhe foi apresentado.

Albert Einstein, porém, alguns anos depois disse que “tudo aquilo que o homem ignora não existe para ele, por isto o universo de cada um se resume ao tamanho do seu saber”; e está mais que óbvio este princípio já estava sacramentado pela orientação semítica:

A sabedoria é a coisa principal; adquire pois a sabedoria, emprega tudo o que possues na aquisição de entendimento. (Provérbios 4:7).

Há pessoas que serão limitadas e verão a palavra “dogmatismo” ou “fundamentalismo” como uma única manifestação “da religiosidade” do sujeito ou de determinada corrente, especialmente se ela estiver rigorosa e unicamente atrelada ao conjunto de dogmas teológicos – o que eu também tenho por ser um teólogo de carreira – porém, aqui não falo de dogmática neste sentido. O vocábulo dogma do grego δόγμα (dogmatikós, em grego moderno (alasbilaleiko)) significou primitivamente oposição. Tratando-se assim de uma opinião centrista, isto é, algo que se referia a “opinião em si”. Por isso, o termo dogmatismo significava “relativo à doutrina”, ou “fundado em princípio”, ou ainda “ensinamento, pedagogia”.

Para alguém que se posiciona como pragmático, utilitarista e evangélico – os meus críticos se posicionam tendenciosamente de modo a pretender uma incoerência ou inconsistência em minha posição; ao que tenho dedicado algum tempo a considerar a possibilidade e insisto que me mantenho firme nestes fundamentos, porque o fundamentalismo em si não é o problema, mas os valores que se defende.

Todas as pessoas, sem qualquer possibilidade de exceção é um fundamentalista ou dogmático de alguma doutrina, nem que seja da anti-doutrina (se é que isto é possível!).

Também, a falta de de entendimento de que com o decorrer dos séculos, o dogmatismo começou a ser percebido como uma posição filosófica eclesiástica (Igreja Católica) defendendo que as verdades absolutas existem e que a estrutura da Igreja era a detentora da sua primazia. Por força da Inquisição e de muitos outros tipos de excessos praticados ao longo de cerca de 1358 anos (440 d.C. na ascensão de Leão Magno I até 1798 na queda de Roma diante do general napoleônico Berthier) – temos um problema sério, profundo, de institucionalização ampla e deplorável da inacessibilidade ao saber.

Os filósofos que existiram, com raras exceções, insistiram demasiado nos princípios metafísicos e em alguns casos, nas tolices defendidas pela crendice religiosa e, por esta razão, não prestaram atenção aos fatos, ou argumentos que pudessem pôr em dúvida esses princípios. Esses filósofos não consagraram o principal da sua atividade à observação ou ao exame, mas sim à afirmação que a religião exigia que fosse feita. Foram por isso chamados filósofos dogmáticos, ao contrário dos filósofos examinadores que vieram a ser rotulados de céticos.

Eu me posiciono exatamente entre os dois mundos e repilo o extremismo de um e de outro; naturalmente porque eu nasci em 1968 e estou aqui escrevendo estas linhas em 2017 e a força da tecnologia mudou o cenário da experiência humana em todos os aspectos que, ao tempo de Kant, de Stuart Mills, Santayanna, etc., nem de longe poderiam supor que com um simples “click” de uma tecla de computador, eu pudesse acessar milhões de trabalhos científicos que respondem às mais diversas questões racionais da vida.

Diante desta proposição e sem perder meu “romantismo evangélico” – como quererão meus críticos (os quais respeito) – a lógica é bem simples:

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu pensamento, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos lábios. Os teus olhos olhem para a frente e as tuas pálpebras olhem direto diante de ti. Pondera a vereda de teus pés e todos os teus caminhos sejam bem ordenados! Não declines nem para a direita nem a esquerda; retira o teu pé do mal. (Provérbios 4:23-27).

Meu dogmatismo se apresenta com base no óbvio da minha experiência e se compõe de minhas próprias percepções no cenário onde eu existo. Ora, propor algo diferente seria ser profundamente estúpido! Não posso apresentar ao mundo uma cosmovisão confucionista, taoísta ou xintoísta – eu nasci no Brasil, no Rio de Janeiro, num teatro absolutamente brasileiro em termos de cultura do período de 1968 (que alguns dizem ser o ano que nunca vai acabar!) – não poderia apresentar uma dialética e uma dialógica longe da língua portuguesa, das raízes de meu povo.

E afirmo isto com grande ênfase porque não posso deixar de lado a importante Filosofia do Processo (ou Filosofia do Organismo) desenvolvida entre os anos de 1930-1940 por Alfred North Whitehead que, mesmo não sendo diretamente conectado à Escola Pragmática como um discípulo, apontou uma cosmologia convergente com esta. E a convergência se dá na justa medida em que a ordem dos pensamentos do pragmático profissional indica um Universo concebido como um agregado emergente de eventos numa coleção de fatos. Tais fatos serão objeto de maior investigação do filósofo neerlândes Guy Debrock que promoveu mais recentemente uma percepção que denominou Pragmatismo Processual; e o filósofo Richard Rorty tem denominado de Realismo Pragmático.

3) Um Pragmático Dogmático e Um Dogmático Pragmático!

Me defino desta forma, e creio ser exatamente como sou, ainda que em círculos mais fechados da família, eu tenha consideráveis defeitos, dias de brincadeiras e de agitação; que seja bem nervoso com certas situações e não fuja de meu temperamento sanguíneo-colérico. Mas, esta face e imagem particular e íntima não é para o grande público, é para minha vida com Keyla e não me importo com as críticas do passado e nem com os invejosos e ciumentos de carteirinha, porque está escrito:

Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Filipenses 3:12-14).

Assim, creio ter explicado a quem me lê, os dois lados de minha moeda psíquica (emoção/dogmática e razão/pragmatismo), posto que, se de um lado sou, por força do próprio Pragmatismo Processual e Realista, conectado à minha verdade particular que se impõe pela aproximação firme e serena de 49 anos de vida; por outro lado, tenho uma contemplação absolutamente forte em minha autodefinição porque sou um Utilitarista confesso, que exige que as coisas em meu entorno tenham lógica, coerência, transparência e uma identidade claramente definida. Neste ponto me alinho firmemente a 35 anos com a Confissão de Fé Evangélica (Dogmatismo Evangélico), bem próximo de Westminster.

Caro leitor, desta abordagem, só poderia ter dado no final a um Professor Jean, que é Naturologista Clínico, Teólogo, Pedagogo e que tem um compromisso com outras áreas em que a abertura de compreensões úteis, pragmáticas, utilitaristas, dogmáticas e firmes na proposta genial do Evangelho se fazem realidade pessoal.

Se este meu testemunho puder ser útil, copiado ou agregado – já valeu meu esforço por explicar-me!

Cordialmente,

Prof. Jean Alves Cabral